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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Os trinta e cinco camelos


Poucas horas havia que viajávamos sem interrupção, quando nos ocorreu uma aventura digna de registro, 
na qual meu companheiro Beremiz, com grande talento, pôs em prática as suas habilidades de exímio algebrista.
Encontramos, perto de um antigo caravançará (espécie de estalagem - muito comum no oriente médio) meio abandonado, três homens que discutiam acaloradamente ao pé de um lote de camelos. 
Por entre pragas e impropérios, gritavam possessos, furiosos:
— Não pode ser!
— Isto é um roubo!
— Não aceito!
O inteligente Beremiz procurou informar-se do que se tratava.
— Somos irmãos — esclareceu o mais velho — e recebemos como herança esses 35 camelos. 
Segundo a vontade expressa de meu pai, devo eu receber a metade, 
o meu irmão Hamed Namir uma terça parte, 
e ao Harim, o mais moço, deve tocar apenas a nona parte. 
Não sabemos, porém, como dividir dessa forma 35 camelos. 
A cada partilha proposta, segue-se a recusa dos outros dois, pois a metade de 35 é 17 e meio! Como fazer a partilha, se a terça parte e a nona parte de 35 também não são exatas?
— É muito simples — atalhou o “homem que calculava”. — 
Encarregar-me-ei de fazer com justiça essa divisão, 
se permitirem que eu junte aos 35 camelos da herança este belo animal, que em boa hora aqui nos trouxe.
Neste ponto, procurei intervir na questão:
— Não posso consentir em semelhante loucura! Como poderíamos concluir a viagem, se ficássemos sem o nosso camelo?
— Não te preocupes com o resultado, ó “bagdali”! — replicou-me, em voz baixa, Beremiz.
— Sei muito bem o que estou fazendo. Cede-me o teu camelo e verás, no fim, a que conclusão quero chegar.
Tal foi o tom de segurança com que ele falou, que não tive dúvida em entregar-lhe o meu belo jamal, 
que imediatamente foi reunido aos 35 ali presentes, para serem repartidos pelos três herdeiros.
— Vou, meus amigos — disse ele, dirigindo-se aos três irmãos — fazer a divisão justa e exata dos camelos, que são agora, como vêem, em número de 36.
E voltando-se para o mais velho dos irmãos, assim falou:
— Deves receber, meu amigo, a metade de 35, isto é, 17 e meio. Receberás a metade de 36, ou seja, 18. Nada tens a reclamar, pois é claro que saíste lucrando com esta divisão.
Dirigindo-se ao segundo herdeiro, continuou:
— E tu, Hamed Namir, devias receber um terço de 35, isto é, 11 e pouco. Vais receber um terço de 36, isto é, 12. Não poderás protestar, pois tu também saíste com visível lucro na transação.
E disse, por fim, ao mais moço:
— E tu, jovem Harim Namir, segundo a vontade de teu pai, devias receber uma nona parte de 35, isto é, 3 e pouco. Vais receber uma nona parte de 36, isto é, 4. O teu lucro foi igualmente notável. Só tens a agradecer-me pelo resultado.
Numa voz pausada e clara, concluiu:
— Pela vantajosa divisão feita entre os irmãos Namir — partilha em que todos os três saíram lucrando — couberam 18 camelos ao primeiro, 12 ao segundo e 4 ao terceiro, o que dá um total de 34 camelos. 
Dos 36 camelos sobraram, portanto, dois. Um pertence, como sabem, ao “bagdali” meu amigo e companheiro; outro, por direito, a mim, por ter resolvido a contento de todos o complicado problema da herança.
— Sois inteligente, ó estrangeiro! — confessou, com admiração e respeito, o mais velho dos três irmãos.
— Aceitamos a vossa partilha, na certeza de que foi feita com justiça e equidade.
E o astucioso Beremiz — o “homem que calculava” — tomou logo posse de um dos mais belos camelos do grupo, e disse-me, entregando-me pela rédea o animal que me pertencia:
— Poderás agora, meu amigo, continuar a viagem no teu camelo manso e seguro. 
Tenho outro, especialmente para mim.
E continuamos a nossa jornada para Bagdá.

(Malba Tahan, Seleções - Os melhores contos – Conquista, Rio, 1963)

* Interessante não??? Eis os mistérios da matemática...rsrsrs.


quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O Oleiro e o Poeta


Há muito tempo, em uma cidade; ocorreu uma rixa entre um jovem poeta, de nome Fauzi, e um oleiro, chamado Nagib. 
Para evitar que o tumulto se agravasse, eles foram levados à presença do juiz do lugarejo.
O juiz, homem íntegro e bondoso, interrogou primeiramente o oleiro, que parecia muito exaltado. 
"Disseram-me que você foi agredido? Isso é verdade?" 
"Sim, senhor juiz." - confirmou o oleiro - "Fui agredido em minha própria casa por este poeta. 
Eu estava, como de costume, trabalhando em minha oficina, quando ouvi um ruído e a seguir um baque. 
Quando fui à janela pude constatar que o poeta Fauzi havia atirado com violência uma pedra, que partiu um dos vasos que estava a secar perto da porta. 
Exijo uma indenização!" - gritava o oleiro. 
O juiz voltou-se para o poeta e perguntou-lhe serenamente: "Como justifica o seu estranho proceder?" 
"Senhor juiz, o caso é simples." - disse o poeta. 
"Há três dias eu passava pela frente da casa do oleiro Nagib, quando percebi que ele declamava um dos meus poemas. 
Notei com tristeza que os versos estavam errados. Meus poemas eram mutilados pelo oleiro. 
Aproximei-me dele e ensinei-lhe a declamá-los da forma certa, o que ele fez sem grande dificuldade. 
No dia seguinte, passei pelo mesmo lugar e ouvi novamente o oleiro a repetir os mesmos versos de forma errada. 
Cheio de paciência tornei a ensinar-lhe a maneira correta e pedi-lhe que não tornasse a deturpá-los. 
Hoje, finalmente, eu regressava do trabalho quando, ao passar diante da casa do oleiro, percebi que ele declamava minha poesia estropiando as rimas e mutilando vergonhosamente os versos. 
Não me contive! 
Apanhei uma pedra e parti com ela um de seus vasos. 
Como vê, meu comportamento nada mais é do que uma represália pela conduta do oleiro." 
Ao ouvir as alegações do poeta, o juiz dirigiu-se ao oleiro e declarou: "Que esse caso, Nagib, sirva de lição para o futuro. 
Procure respeitar as obras alheias a fim de que os outros artistas respeitem as suas. 
Se você equivocadamente julgava-se no direito de quebrar o verso do poeta, achou-se também o poeta egoisticamente no direito de quebrar o seu vaso." 
E a sentença foi a seguinte: "Determino que o oleiro Nagib fabrique um novo vaso de linhas perfeitas e cores harmoniosas, no qual o poeta Fauzi escreverá um de seus lindos versos. 
Esse vaso será vendido em leilão e a importância obtida pela venda deverá ser dividida em partes iguais entre ambos." 
A notícia sobre a forma inesperada como o sábio juiz resolveu a disputa espalhou-se rapidamente. 
Foram vendidos muitos vasos feitos por Nagib adornados com os versos do poeta. 
Em pouco tempo Nagib e Fauzi prosperaram muito.
Tornaram-se amigos e cada qual passou a respeitar e a admirar o trabalho do outro. 

O oleiro mostrava-se arrebatado ao ouvir os versos do poeta, enquanto o poeta encantava-se com os vasos admiráveis do oleiro. 

Cada ser tem uma função específica a desenvolver perante a sociedade.
Por isso, há grande diversidade de aptidões e de talentos. 
Respeitar o trabalho e a capacidade de cada um possibilita-nos aprender sobre o que não conhecemos e aprimorar nossas próprias atividades. 

Respeito e colaboração são ferramentas valiosas para o desenvolvimento individual e coletivo.

(Texto retirado do livro "O livro de Aladim" de Malba Tahan - livro que reúne histórias e lendas árabes)